
Mais um capítulo de uma história muito mal resolvida.
O governo de Ruanda ontem divulgou um relatório em que acusa formalmente a França de ser conivente com o genocídio de 1994. Como se fosse pouco, pede nada menos do que a punição a três ex-primeiros-ministros (Edouard Balladur, Alain Juppé e Dominique de Villepin) e aponta o dedo para um totem da política francesa, o falecido presidente François Mitterrand.
As acusações são de que os franceses financiaram e forneceram apoio político e logístico para que o então regime hutu organizasse e executasse o mais rápido genocídio da história moderna. Em menos de três meses, mais de 1 milhão de cidadãos da etnia tutsi, rival histórica dos hutus, foram massacrados.
Não é a primeira vez que Ruanda aponta o dedo para os franceses, mas nunca as acusações haviam sido tão fortes. Segundo o relatório, soldados franceses participaram ativamente da matança ao lado dos extremistas de Ruanda.
Há um dedo de exagero e de disputa política nesse relatório, mas o papel vergonhoso dos franceses no genocídio é difícil de negar. Sempre preocupada em proteger sua esfera de influência na África, La France tem o péssimo hábito de dar abrigo aos ditadores mais desagradáveis desse continente. É ela quem sustenta o regime corrupto e autoritário do Chade, por exemplo.
No caso de Ruanda, os franceses apoiavam os hutus desde os anos 70, e inundaram o país de armas de fogo e mesmo facões e machados nos meses anteriores ao começo do genocídio. E no final, quando rebeldes tutsis comandados pelo atual presidente, Paul Kagame, invadiram o país, soldados franceses protegeram os genocidários e ofereceram a eles uma rota de fuga para o Congo. Muitos estão ali escondidos até hoje.
Há alguns anos, os franceses iniciaram uma investigação contra Kagame, acusando-o de ter ordenado a derrubada do avião que carregava o presidente de Ruanda em abril de 1994, que foi o estopim do genocídio. Os dois países chegaram a romper relações. Em Kigali, a capital de Ruanda, há uma comissão permanente do governo simplesmente dedicada a investigar o papel francês no genocídio.
Recentemente, a coisa havia melhorado um pouco, com os dois países reatando seus laços diplomáticos. O atual chanceler francês, Bernard Kouchner, tem uma relação antiga com Kagame, de desde a época do genocídio, quando trabalhava numa organização humanitária, a Médicos sem Fronteiras.
Agora, a coisa deve azedar de novo. A França já respondeu ao que considera “acusações inaceitáveis”. Os pedidos de indiciamento dos figurões franceses certamente serão ignorados (Ruanda não tem como invadir a França como os EUA fizeram no Iraque, evidentemente).
Nada que ofereça algum tipo de conforto para os milhares de órfãos e viúvas cujo único consolo é visitar os incontáveis memoriais pelo país, abarrotados de crânios...




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