sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Desemprego leva trabalhador ao crime

O alto índice de desemprego em Salvador leva pais de famílias desesperados a recorrer à ilegalidade do comércio informal. Esta é a realidade do eletricista Vladimir Oliveira Santos, 49, preso na última segunda-feira, por falsificação de CDs e DVs. Policiais da 3º Delegacia receberam uma denúncia anônima de que Vladimir tinha uma “fábrica” de produtos ilegais em sua residência, situada na Rua Conselheiro Zacarias, Avenida Lobato, bairro de Roma, autuando-o em flagrante. A polícia encontrou cerca de 800 CDs e DVs falsificados, xérox que seriam usadas para a confecção das capas, três gravadores de CD, quatro impressoras e dois aparelhos de DVD interligados.
De acordo com a polícia, o acusado fazia todo o processo em casa. Ele baixava músicas e filmes da internet, depois fazia a gravação, tirava fotografias das capas originais em vídeo locadoras, e por último, repassava o produto para a venda. Ainda segundo os agentes, Vladimir também fazia falsificação de camisas de festas.
A equipe de reportagem da Tribuna da Bahia tentou durante dois dias consecutivos entrar em contato com o acusado, recolhido a uma cela na 1ª Delegacia. Mas em nenhuma das tentativas encontrou o delegado titular da unidade para autorizar o acesso ao preso. Por telefone, o delegado titular da 1ª disse que permitiria, mas teria quer ser autorizado pelo titular da 3ª DP, que também não foi localizado ontem, por estar em atividade externa.
Na rua onde mora Vladimir, vizinhos se mostram surpresos e chocados com a prisão do rapaz, considerando que os motivos não seriam tão ofensivos. Uma moradora de prenome Adriana, disse que Vladimir é morador do local há mais de 30 anos, é um homem respeitado e sempre trabalhou como eletricista. “Ele já fez vários serviços aqui em casa, desde colocar uma simples lâmpada até uma fiação de alta complexidade.
Ele fazia bicos porque estava desemprego há algum tempo, que não sei informar quanto”, afirmou. Outro vizinho que não quis se identificar relatou que Vladimir era muito conhecido pelos moradores. Ele é casado e tem dois filhos com idades em torno de 20 a 25 anos. “Vladimir praticamente nasceu aqui no bairro. Conheço-o desde que era pequeno. Morava com a tia, quem ele considerava uma mãe. Casou e separou-se. Teve dois filhos que inclusive brincavam muito comigo. Há pouco tempo ele vive com uma nova companheira.”, contou.
Os vizinhos estão tristes porque não compreendem o real motivo da prisão de Vladimir. “Ele é um homem trabalhador e a polícia o tratou como bandido. Os agentes chegaram na residência dele de uma forma agressiva e foram logo prendendo sem dar chance de defesa.”, disse um dos vizinhos. A moradora Adriana também afirmou que além de eletricista, Vladimir mexia com música.
“Ele fazia animações de festas, alugava som e colecionava discos, Cds e Dvds dos artistas que gostava. Moro do lado dele e nunca vi movimentação ou ponto de vendas ilegais aqui”, relatou. Adriana ainda complementou que a esposa do acusado está correndo atrás de um advogado para que o caso seja elucidado. Ele está preso há dois dias e ainda não temos notícias. Nem a mulher dele conseguiu vê-lo na delegacia”, adianta.


Para vizinhos, a prisão é injusta

; Judith Santos, tia de Vladimir, uma senhora que aparenta mais de 70 anos, está inconsolável. Não entende o motivo pelo qual o sobrinho foi preso. “Ela sofre de esclerose e precisa de alguns remédios e uma boa alimentação para não piorar o caso dela”, disse Adriana. A senhora fica emocionada quando lembra do sobrinho, quem ela considera como filho. “Ele é um homem direito. Estava desempregado e tinha que procurar alguma forma de sustento”, lamentou.
Um outro vizinho disse que é muito injusto que um homem como Vladimir receba o mesmo tratamento que criminosos de alta periculosidade. “Ele pode ter cometido algum delito, e tem que responder por isso. Porém, não deveria estar no meio de gente perigosa que matou, roubou ou estuprou. Espero que esse fato seja esclarecido da melhor forma. A família está muito apreensiva e não merece passar por isso”, disse. Ainda de acordo com os vizinhos, a denúncia anônima à polícia pode ter sido feita por algum desafeto, que eles desconhecem, ou por alguém que inveja de Vladimir, que é muito querido na comunidade.
Salvador é uma das cidades com maior número de desempregados do Brasil. Mais de 15% da população vive sem emprego. Esse número ainda pode ser considerando maior, levando em consideração as pessoas que trabalham no comércio informal. Aroldo Alves, 41, está desempregado há mais de cinco anos.
Na falta de um trabalho com carteira assinada, ele passou a vender bolsas e bijuterias no centro da cidade. Essa é sua única fonte de renda para sustentar os três filhos pequenos. “Se não fosse esse trabalho aqui, estaria roubando para colocar comida na boca de meus filhos.
O desemprego é muito grande, principalmente para os pobres que não têm estudo ou passou dos quarenta anos.”, relatou. Aroldo ainda contou que certa vez já tomaram sua mercadoria e que até tomou pancada dos agentes da prefeitura. “ Não estamos fazendo nada de errado, que prejudique alguém para sermos tratados como bichos”, conclui.

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